sábado, 27 de janeiro de 2018

Entrevista com Danielle Barros: Reflexões sobre HQ e literatura & quadrinhos no ensino em 8 questões por Reinan Carmo (discente UFSB)

Entrevista com Drª Danielle Barros conduzida por Reinan Carmo (discente UFSB)
A entrevista faz parte da produção de um material do componente curricular Ensino de Línguas através de charges e HQs, da Universidade Federal do Sul da Bahia

1. Você compreende os HQs, charges, cartuns e fanzines como literatura?

Absolutamente não! A ideia de que os quadrinhos são um tipo de literatura perdura ainda, a meu ver, porque sempre existiu uma busca pela legitimação dos quadrinhos como uma forma de arte (como se já não fosse!) através da sua inserção em outras artes já consolidadas e estabelecidas como o cinema e a literatura. Portanto, historicamente as HQs foram equivocadamente consideradas uma “subliteratura”. Apesar dos quadrinhos também dialogarem com outras artes (como a pintura, o cinema, a fotografia, a literatura, etc.) – e mais recentemente terem sido incluídas como categoria do notório prêmio literário Jabuti - as HQs e seus derivados (charges, cartuns) constituem uma linguagem imagético-textual específica, autônoma e independente do campo das artes sequenciais, sendo também conhecida como “Nona Arte” e não carece de legitimações externas. 

Apesar de um histórico de preconceitos e má fama na área da educação, recentemente as HQs tem ganhado espaço na área do ensino, sobretudo com a recomendação para sua utilização como recurso didático-pedagógico em importantes iniciativas do governo brasileiro, como nos PCN (Parâmetros Curriculares Nacionais) e no PNBE (Programa Nacional Biblioteca na Escola) e editais de fomento à cultura. Porém, na prática, as HQs são concebidas por tais programas governamentais e por boa parte dos profissionais de ensino apenas como uma “ferramenta” que viabiliza a leitura de obras clássicas e livros literários, sendo vistas de forma superficial com o fito de tornar a literatura mais “palatável” através das adaptações de clássicos da literatura em formato de quadrinhos. Ou seja, os quadrinhos são utilizados como um “degrau” para que os alunos tomem gosto pela leitura de livros e não há uma verdadeira exploração da linguagem quadrinística. Outro fator curioso que corrobora a este (sub) uso utilitarista que visa apenas usar as HQs como uma forma de atrair leitores para os livros é perceber que a escolha das HQs que compõem a lista de obras do PNBE são predominantemente de “adaptações literárias” de clássicos da literatura, ignorando toda a vasta e prolífica produção de quadrinhos brasileiros em seus diversos temas e tipos. Com isso, as editoras têm investido de forma intensa na publicação de adaptação de obras literárias já visando atender as lucrativas demandas do governo, criando um nicho e certo monopólio de investimento. 

As adaptações de obras literárias para quadrinhos em si não é algo ruim, o que é preciso estar atento são aos interesses editoriais que se desenham, na falta de investimento para publicação de obras autorais e experimentais (já que o interesse tem se voltado às adaptações), o que gera uma desmotivação ao artista autoral em criar suas obras (pois lhes falta o apoio), fomentando ainda uma crescente diminuição na diversidade de temas e tipos de publicações. Além do próprio equívoco em si de reduzir a complexidade e a potencialidade dos quadrinhos a meros e supostos “degraus” para o gosto pela leitura de livros, que embora possa contribuir, não deve ser resumido a tal finalidade.

Enquanto as histórias em quadrinhos são uma linguagem, o fanzine (ou zine) por sua vez, são publicações independentes, amadoras e artesanais, impressas por técnicas diversas (fotocopiadoras, mimeógrafos, impressoras a laser, xilogravuras, dentre outras), de tiragem reduzida, em que o editor/autor/fanzineiro é responsável por todo processo editorial e de produção, que envolve desde a concepção, coleta de informação, geração de conteúdo, diagramação, ilustração, montagem, paginação, divulgação, distribuição, vendas e trocas. O fanzine, portanto, é uma publicação artesanal que pode abordar diversos temas, entre eles a literatura, a poesia, quadrinhos, música, rock, culinária, ciência, etc. E seu nome deriva justamente dessa ideia, é um termo criado pela união do prefixo fan de fanatic com o sufixo zine de magazine, que significa magazine do fã (ou seja, fãs de determinado tema ou assunto). Os zines têm como característica essencial a liberdade de expressão do autor constituindo-se como verdadeiros laboratórios de exploração e experimentação de diferentes linguagens.

2. Em que você se inspira para a produção dos trabalhos?

O que me inspira a criar é o que me inspira a viver. É a vida, a morte, o Cosmos, e todos os renascimentos que vivencio diariamente. Em minhas ilustrações inspiro-me na estética da art noveau, das iluminuras medievais, zetangle, era vitoriana, arte gótica, arte sacra, tenho ainda como influência o xamanismo, cultura celta, paganismo e tradições indígenas. Quanto aos artistas, algumas das minhas referências são: Akiane Kramarik, Albert Aublet, Alejandro Jodorowsky, Alex Grey, Alfredo Rodriguez, Alice Mason, Alphonse Mucha, Amanda Sage, Autumn Skye ART, Boris Vallejo, Clarice Lispector, Drª Clarissa Pinkola Estes, Ciberpajé Edgar Franco, Emily Balivet, Enya, Eva Ruiz, Fernando Pessoa, Gazy Andraus, Jessica Galbreth, Lucy Campbell, Manara, Mark Henson, Mozart Couto, Nata's Art, Osho, Pamela Matthews, Rik Lee Illustration, S. Sava, Sharon Irla, entre outros. 

3. Quais os temas mais abordados em suas obras?
Minhas criações tem como personagem principal a índia Sibilante, as histórias vivenciadas por ela narram sua busca contra a face obscura do ego e pela transcendência. A problemática que enfatizo em minhas criações diz respeito ao momento em que vivemos hoje, um mundo regido pela fragmentação dos processos, das pessoas e relacionamentos e com isso, como consequência, temos a degradação dos seres, a desconexão com a natureza e da essência do eu interior. Essa desconexão tem gerado sofrimento, guerras e egocentrismo, pois a manifestação da falta de auto amor é a destruição de si e de outros seres. A meu ver é preciso questionar e reverter os valores vigentes na sociedade, entretanto isso só é possível a partir de uma auto revolução. Nesta perspectiva, eu uso a arte como forma de (auto) revolução e como forma para sensibilizar as pessoas sobre essas questões, na perspectiva da arte como cura e fonte de sentido à vida. Em suma, a característica marcante em minhas obras é enfatizar a busca de Sibilante no Caminho do autoconhecimento a partir do confronto entre o eu imaginado (o ego forjado pela cultura), e o eu essencial (a descoberta do ser cósmico), e todas as dores e êxtases desse processo. E para tanto, utilizo os quadrinhos e fanzines como forma de expressão artística e experimentalismo do gênero Poético Filosófico para retratar essa jornada cósmica.

HQ publicada na revista Sibilante (2015)

4. Seus trabalhos são direcionados para algum público em específico?
Não, minhas criações são livres e exploram as experimentações da linguagem das HQs, estão abertas a todas as pessoas que tenham interesse e sensibilidade para mergulhar no desconhecido mundo do autoconhecimento.

5. Você acredita que os HQs podem ser usados na prática docente como instrumento de ensino?
Com certeza, mas desde que utilizados de forma dialógica e criativa, e não de forma superficial, passiva e bancária. A meu ver a melhor forma de usar quadrinhos no ensino é de modo em que os participantes sejam os criadores e protagonistas do processo. Creio tanto nisso que utilizei esse tema como foco de estudo em meu doutorado[1] na Fundação Oswaldo Cruz/RJ. É pertinente ressaltar, contudo, que os quadrinhos e os fanzines não têm a atribuição de atuar como um meio de divulgação científica, ou de “ferramenta educacional” embora eventualmente isso aconteça. É de suma importância que não se faça uma “didatização” dos quadrinhos no âmbito do ensino, como nos alerta o educador Elydio Santos-Neto.

6. Hoje como artista, você acredita que a partir do momento que se decide trabalhar com esses gêneros em sala de aula, deve-se trabalhar com um material já pronto ou aproveitar o momento para que os alunos criem livremente suas próprias histórias?
Pode-se trabalhar das duas formas citadas e ainda inventar muitas outras. A metodologia empregada por grande parte dos educadores atualmente é utilizar HQs já existentes com gibis que tratem de assuntos e temas relacionados ao conteúdo e os utilizar como meio para introduzir a discussão do tema. Então é comum vermos professores trabalhando com “Turma da Mônica”, “Menino Maluquinho”, “Mafalda”, etc em HQ, tiras e charges, ou as tiras do livro didático para “demonstração” de temas científicos, e aquela já desgastada atividade de “preencher balões”, que embora possam ser atividades proveitosas como recursos didáticos, se forem utilizadas de forma acrítica e sem o devido aprofundamento conceitual tornam-se ações de pouca relevância educativa. 
Infelizmente, as iniciativas em que os educandos são colocados como criadores e protagonistas no processo criativo de quadrinhos, charges, tiras, ou fanzines são ações ainda incipientes na área do ensino. O educador Elydio Santos Neto recomenda que cada educador que pretender trabalhar com HQs em sala de aula deverá criar sua própria metodologia, de acordo com seus objetivos, levando em consideração as especificidades dos educandos, fatores culturais, sociais, entre outros, com planejamento adequado e sempre reavaliando suas práticas. Além disso, o docente deve ter familiaridade com a linguagem e percepção das possibilidades, de forma criativa, construtivista e não de forma instrumental e bancária.






Fotos de oficinas de quadrinhos e fanzines no ensino de ciências e saúde

7. Durante sua trajetória escolar, no ensino fundamental e médio, você teve acesso a esses gêneros em sala de aula?

Não que eu me recorde. Lembro-me vagamente da presença de tiras em livros didáticos, mas não tenho nenhuma lembrança da menção ou uso dessas tiras em aulas.

8. O que você acha da proposta de ensino através de HQs e charges?
Acho excelente e instigante se utilizado de forma crítica, dialógica e criativa, explorando todas as potencialidades dessa incrível e múltipla linguagem!

Por favor, descreva brevemente um pouco da sua formação e atuação

Sou artista, nasci em Itabuna-BA e moro em Teixeira de Freitas. Sou formada em biologia pela Universidade do Estado da Bahia (UNEB) no campus de Teixeira de Freitas; tenho duas especializações na área de ciências e saúde, mestrado em Ciências na área de Comunicação e Informação em Saúde (ICICT/Fiocruz), e doutorado em Ciências na área de Ensino de Biociências e Saúde (IOC/Fiocruz). Uso o nome artístico “IV Sacerdotisa da Aurora Pós-Humana”, por integrar um universo mágicko de ficção científica criado pelo artista Edgar Franco que ambienta as criações transmídia em quadrinhos, música eletrônica, performances artísticas, HQforismos, etc. Sou pesquisadora do Grupo de Pesquisa CRIA_CIBER (Criação e Ciberarte) na Linha de Pesquisa Arte, Linguagens Intermídia e Narrativas Híbridas da Faculdade de Artes Visuais da Universidade Federal de Goiás. Minha pesquisa de doutorado teve o foco de pesquisa no estudo sobre materiais educativos em ciências/saúde e quadrinhos e fanzines no âmbito da educação científica. Atuo como arte educadora com quadrinhos e fanzines no ensino de biociências e saúde, escrevo poesias, faço ilustrações, HQforismos, quadrinhos e fanzines, com realização de oficinas criativas em todo país.


Eu com meu livro “Sketch Book Custom” durante o lançamento em São Paulo promovido pela Editora Criativo

Se você gostou desta entrevista confira também: 

http://ivsacerdotisa.blogspot.com.br/2018/01/vida-ciencia-educacao-arte-conheca-iv.html
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Agradeço imensamente a oportunidade de poder falar sobre minha trajetória e atuação no ensino com essa linguagem que eu amo que são os quadrinhos e também os fanzines!

[1] Minha tese de doutorado está disponível no repositório de teses da Fiocruz: https://www.arca.fiocruz.br/bitstream/icict/23818/2/danielle_fortuna_ioc_dout_2017.pdf