quarta-feira, 31 de maio de 2017

Homenagem a meu pai Francisco Renato de Jesus Santos

Meu querido pai,
Ontem fiquei sabendo de sua passagem através de um recado em rede social. Esperava que fosse de outra forma e que esse dia não viesse tão cedo.
A gente quer os outros bem e mesmo que esteja distante e não vejamos todos os dias é bom saber que estão ali, bem e vivendo a vida. Assim estava nossa relação desde que saí de Salvador para fazer a faculdade na UNEB, um dos nossos sonhos realizados.
Nosso combinado era: um ligava, depois era a vez do outro, mas em sua vez você sempre falhava, daí depois de muito esperar eu ligava e você dizia “olha o sumidoooo!!!” e ria.
Como nosso contato era sempre direto, no fundo eu sempre temi e me perguntava: se algo acontecesse com você, como eu ficaria sabendo?
Você sempre foi alto astral, bondoso, generoso, amigo, tímido, correto, trabalhador, gentil, me transmitiu valores de vida, ética, ensinamentos sobre religiosidade na filosofia oriental, criticidade política, e sobretudo me deu o seu exemplo!
Adotou-me como sua filha ao unir-se com Mamãe Ana, eu ainda era pequena, e junto com ela educaram-me, cuidaram e contribuíram para quem eu sou hoje.
Mesmo depois que se separaram nossa amizade e relação continuou! Foram muitos passeios, pizzas, acarajés, carnavais de Salvador, idas atrasadas à rodoviária, e tantas outras coisas boas.
Você que veio do interior, de Amargosa, de uma família numerosa com 8 irmãos os quais ajudava a todos: a seu pai e à sua mãe, seus sobrinhos, irmãos, amigos e desconhecidos, e veio batalhar uma vida melhor em Salvador, conseguiu tanta coisa bonita!
Teve a banca de revista mais famosa do Porto da Barra, onde me alfabetizei lendo HQs e revistas, onde aprendi a amar o “cheiro” do impresso, do papel, do jornal, os álbuns de figurinhas, influência que certamente me conduziu a meu caminho atual de pesquisa e criação.
Ensinou-me a importância da educação como meio de transformação de vida, me ensinou através de suas ações, ao ajudar a qualquer um que lhe pedia ajuda, como ser generoso e com pureza de intenções.
Você acreditou em mim, sempre me ajudando como pôde para que eu pudesse me alimentar, comprar livros, pagar aluguel, etc, alguém que não tinha cursado nem a quarta série, e fez a filha doutoranda (em breve doutora) em instituição federal.
Devo tudo a vocês. Foram tantas coisas que a gente passou...
Certamente uma das épocas mais felizes da minha vida foi em nosso núcleo familiar em Salvador, no edifício Barra do Sol, estudando na Dorilândia (uma ótima escola que vocês investiram com muito esforço para minha formação inicial), meu quarto cheio de bonecas e o amor imenso e caloroso de vocês.
Me lembro de seu chulé único, e de você todo arrumado, um pouco careca, mas com o cabelo sempre penteado! Como não tinha bunda, enchia a carteira de papel e cartões de visita, ótima dica que sempre vou levar! Rs
Depois da banca, começou a trabalhar como taxista, sempre com muita dedicação, pois você era o melhor em tudo que fazia! Que orgulho sempre tive de você!
Esteve em aniversários, minha formatura, casamento e tantos momentos importantes e felizes.
Um deles foi quando meu nome saiu impresso no jornal “A Tarde” quando passei no vestibular, que alegria!
Teve também os momentos de dúvida e dificuldades, os quais sempre passou serenidade pra mim com palavras de sabedoria e otimismo.
Anos depois, quando eu estava grávida, por sincronicidade da vida, o médico marcou o parto para dia 19 de outubro, exatamente no dia do seu aniversário, e assim foi! Ter filho e pai aniversariando no mesmo dia, especial.
Você me ajudou tanto na vida e tinha uma luz tão grande que acho que mal retribui e que talvez eu nem merecesse tanto.
Uma vida juntos e você partiu sem nos despedirmos. Eu sempre te ligava antes de viajar, e viajei semana passada, mas achei melhor te ligar na volta para contar as novidades...
Eu consegui me despedir de meu avô, e de você que seria da mesma forma tão essencial, foi assim, e ainda não me conformei com isso.
Agradeci à minha mãe por ter te trazido para nossas vidas, que feliz encontro.
Não tenho NADA para falar mal de você, tirando o fato de não me ligar tanto, mas cada pessoa tem um jeito.
Se existir paraíso tenho certeza que você está lá.
Eu sempre falei pra minha mãe, que quando meu avô morreu por pior que tenha sido, pudemos nos despedir e nos preparar e você foi de repente. Tinha tanta coisa pra te mostrar, contar, fazer.
Meu ego me diz que sou culpada e lamento não ter ido te visitar este ano. Ao mesmo tempo me falta humildade pra lembrar que sou nada no mundo, uma simples areia nesse vasto universo, que nada controlo. No fundo, acho que a gente sempre pensa que está fazendo o melhor que pode.
Mas além da dor da partida brusca, saber que você estava internado, que ninguém me avisou e eu não liguei nesse tempo, me doi tanto. Nesse fluxo cósmico da vida parece que não mereci me despedir de você, sinto muito.
Parte de mim vai embora contigo, mas muito de você fica comigo/conosco e reverberará em meu filho e em todos aqueles que tiveram a honra de te conhecer e conviver com você.
Esteja em paz e na luz. TE AMAMOS! Pedro Jorge chorou sentindo sua partida, ele falava de você. Todos nós sempre lembramos de você, todos nós. Mamãe Ana, Jorge, toda família Barros que te tinha no coração.
Espero que em seu coração tenha certeza de meu amor por você, da minha admiração, da minha imensa gratidão e honra por nossa convivência. Não sei o que teria sido de mim sem você, meu anjo, desculpe não ter estado lá nos últimos momentos. Te amo. Perdão. Gratidão.
Renato, renascido está.
Com amor de sua filha Danielle












Nasceu em 19/10/1949
Transmigrou em 28/05/2017