sábado, 30 de janeiro de 2016

Ei, hoje completa 30 dias do assassinato do índio Vitor Pinto que mamava no colo da mãe, você sabia?

Dia 13 de janeiro fiquei sabendo da morte do índio menino que mamava no peito da mãe, foi assassinado depois de receber um carinho no rosto de seu assassino antes de ser degolado. O assassinato tinha acontecido dia 30 de dezembro, e eu só soube 15 dias depois, pela internet! Fiquei tão chocada que fiz este desenho e esta POSTAGEM. O crime aconteceu em Santa Catarina, não foi noticiado pela grande mídia e poucas pessoas souberam disso. Como diz a mãe do menino: “Se um indígena cortasse a garganta de uma criança branca o Brasil viria abaixo. Quero a mesma indignação pela morte do meu filho” - diz Sônia, mãe do Vitor.

Pertences do garoto permaneciam no local do crime no início da tarde (Foto: Gabriel Felipe/RBS TV)
Postei o desenho no facebook em meu perfil e página, enviei para algumas páginas e tiveram centenas de compartilhamentos. Uma das coisas que mais me intrigou entre as dezenas de mensagens que recebi é "NÃO SABIA DESSE CRIME, VIM A SABER AO VER O SEU DESENHO/POSTAGEM". Para mim, ter conseguido fazer a informação chegar a mais pessoas, já valeu ter criado a arte.

Postado com o provocativo título: "ATIVIDADE PARA "COLORIR" - pinte a criança morta"
Veja AQUI o post
E é curioso porque dias depois, a morte do ator de Harry Porter e do David Bowie, fez com que muita gente mudasse seus avatares, aquela comoção geral. Eles morreram de câncer aos 69 anos, e o menino com 2 anos no colo da mãe, ASSASSINADO, não gerou revolta, hashtags nem avatares. Claro que o valor enquanto pessoa e como ícones culturais que esses artistas representam é inestimável, mas minha comparação aqui não é entre "vidas" mais "importantes" e sim pela NÃO COMOÇÃO e não divulgação em um crime atroz como esse dentro de NOSSO PAÍS!

Foto: Guilherme Santos
Pari passu, com o crescimento da "nova era", muitas páginas, blogs e lojas que se valem da cultura indígena em uma verdadeira e lucrativa "apropriação cultural", com eventos de "cura xamânica", "moda", "rodas de vivências sagradas", e outros elementos da cultura indígena, não reverberou nem veiculou NADA sobre o crime. É um caso "chato" mesmo para lidar com a "clientela", imagino.

Exemplo de apropriação cultural na moda. Foto Victoria’s Secret
Também não vi a tão falada sororidade feminista daquelxs que vão às ruas batalhar por ter direito ao top less, "meu corpo, minhas regras", ao direito de amamentar em público e afins, sendo que essa MÃE indígena só queria amamentar sem ter seu filho DEGOLADO (se não for pedir muito). Sobre isso, outro dia eu comentei sobre o "silêncio" das feministas sobre o caso, em uma página feminista e mandaram ME CALAR no post, pois se tratava "de um outro assunto", que deveria ser discutido em "separado". 
Claro, acho que elas nunca ouviram falar em INTERSECCIONALIDADE, até porque a pauta do movimento feminista é distinto da militância da mulher negra, mas isso fica para um outro post. Mas antes, um "parêntesis": Não podemos esquecer que na pirâmide de gênero a mulher negra e indígena é a base no quesito opressão, então não interessa à muitos saber da realidade da mulher negra e indígena. 

A grande mídia está calada, sabe por quê? Porque o índio é um símbolo de ser holístico cuja sua simples existência denuncia nossa desconexão com a natureza e com nossa essência animal e espiritual.
O índio representa o retrato do que nos tornamos, de quem éramos e o que somos agora. O índio representa para a maioria, como um entrave ao "progresso", como uma antítese do capitalismo. Os índios são o símbolo da luta contra o AGRONEGÓCIO, o desmatamento, a criação pecuária que devasta nossas florestas e água. (Leiam este POST em que me aprofundo nesta questão).
Gente, o genocídio aos povos indígenas está em curso, começou em 1500 e continua!

Concordo inteiramente com esta citação:


"No mundo capitalista, no qual tudo vira mercadoria, não há espaço para o indígena. E não é só porque ele é uma presença incômoda, lembrança indelével do primeiro crime - a invasão. Mas porque ele é também a recusa histórica desse sistema. Ele não faz da terra uma mercadoria, ele não explora os parentes em fábricas de coisas, nem inventa produtos inúteis para vender aos incautos. O indígena pensa o território como espaço de vida e de espiritualidade. Reproduz suas cerâmicas, seus cestos, colares e bichinhos como resistência cultural e como única possibilidade de sobreviver no mundo que lhe foi imposto. E, se ocupa as ruas, as marquises e as rodoviárias é porque não têm outra escolha."
 (Elaine Tavares, 2016) 

Foto: Diversidad Cultural Indígena Latinoamericana
Outro dia vi uma notícia horrenda sobre o assassinato de um índio morador de rua que dormia no chão nos arredores da rodoviária de Belo Horizonte (MG), o vídeo mostra a agressão gratuita que levou a morte do índio, ainda sem identificação de seu nome e etnia. 
Crimes como este é a mais horripilante representação do ódio, ódio do homem branco  em racismo perverso, de uma pessoa privilegiada, classe média, bem nutrido, bem vestido, mas com ódio de si mesmo, e de seu vazio existencial. Pois a guerra nasce da falta de amor próprio que faz com que os seres doentes da essência pratique atos de ódio contra o outro, contra o mundo, contra a natureza, logo, contra si mesmo. 
Sim, o índio morreu pisoteado até a morte. Mais um. Alô índio Galdino, mortes como a sua ainda são corriqueiras por este mundo cruel!
Índio não tem casa, não tem saúde, não tem terra (vide notícias de expulsão de terras), desocupação da aldeia Maracanã e o recente drama dos índios pataxó no sul da Bahia,  (só para citar alguns exemplos), índio não tem DIREITOS. 
A imagem do índio veiculada na mídia é de ser "vagabundo", "sujo", "invasor", "ignorante", "bêbado". O que esperar de uma nação que não respeita seus povos ancestrais? NADA! É como o filho que desonra o pai.
Poucos dias depois, acordei com essa notícia "Corpo de nordestino assassinado não atrapalha dia de praia em Florianópolis". No texto ainda tem trechos de uma "carta" chocante feita por um grupo que se dedica a fomentar o ódio contra nordestinos (do qual se referem como "baianos"), ameaçando o extermínio do que eles chamam de "praga". Nessa hora fico me perguntando: quantas pessoas foram mortas só por serem nordestinas? Quantas pessoas foram mortas só pelo fato de serem negras? De serem gays? De serem pobres? Por ser índio? 
Em seguida li um comentário raivoso de uma mulher em uma postagem sobre "feminicídio" respondendo a uma pessoa que lhe indagou "se o feminismo busca igualdade, porque só existe o feminicídio e não outros tipos de enquadramentos criminais, o feminismo buscando "igualdade", qual a razão de reivindicar esta "diferença"? A feminista bradou: "Porque só a MULHER morre por ser mulher!"

Pensei, é indiscutível e cruel a violência contra mulher. É um FATO, é antigo e precisa ser combatido de forma contundente, QUE O DIGA NÓS MULHERES NEGRAS E INDÍGENAS, mas afirmar que "só a mulher morre por ser mulher" além de não ser verdade, abriria o caminho para criarmos outros enquadramentos como: indigena-cídio, pobre-cídio, negr-icídio, feminicídio da mulher negra (ver este texto), homofobi-cídio, e tantos outros em que se morre por ser quem se é, tanto em relação a gênero, etnia, condição sexual e social.

Também não posso deixar de falar da morte dos 5 jovens NEGROS por PMs no Rio, bem como das crianças negras mortas (meninos e meninas) diariamente nas favelas, das Claudias assassinadas, dos Amarildos da vida, mas nem entrarei nisso senão o post ficará impossível de ler dada a extensão de exemplos. 
Mas para simplificar o genocídio, desta vez falando do negro no Brasil, esta notícia de 2014, mas muito atual, onde relata "o assassinato de 82 jovens por DIA, vítimas de 30 mil assassinatos em 2012; do total de mortes, 77% eram negros, o que denuncia um genocídio silenciado de jovens negros".
Gente, não é só mulher que morre por ser mulher: índio, nordestino, negro, pobre, todos os dias! A luta é muito maior. Deixo claro que apesar de não ser feminista eu luto pelos direitos da mulher (tanto que por vezes já me disseram "esse seu discurso parece feminista"), porém sou uma livre pensadora e atuante, e obviamente muitos de meus pensamentos poderão ser associados à diversas lutas, e daí a tendência em tentarem me rotular. Mas é opção minha não me prender aos "ismos" e poder exercer minha cidadania de mundo. Talvez por eu ter esse meu lado holístico e não cartesiano, não consigo pensar em "lutas em separado", como a tal feminista me mandou fazer. Não dá.

Mas os índios SÃO FORTES E RESISTENTES, e esse vídeo é uma prova da força indígena, é arrepiante e indignante, veja você mesmo:


Termino este texto em memória de Vitor Pinto Kaingang com este trecho dito pelo Xamã yanomami Davi Kopenawa, publicado em seu livro "A queda do céu": 

Aliando mitologia, experiência política e pessoal, o xamã traz aos brancos lições urgentes e de uma sabedoria singular. Na entrevista, ele narrou o mito yanomami de criação da noite e explicou por que o céu corre o risco de desabar sobre nossas cabeças:
"(...) No início do mundo, no nascimento desse mundo, não tinha noite, não tinha escuridão. Só tinha dia, só tinha luz do sol. Foi um caçador, neto de Omama, que achou, que descobriu. (...)
O primeiro, o céu, foi Omama que levantou, como uma casa. Ele suspendeu o céu lá em cima e a terra, embaixo. Aí ele colocou uma pedra grande para segurar. Não é pau, não é árvore, ele colocou uma pedra. Mas ele não estava preparado, não estava com o pensamento bom para construir de uma vez só. Ele colocou mal colocado e mal apoiado. Ele fez o levantamento do céu e a terra embaixo para a gente morar. O povo yanomami começou a criar, casar, fazer filho, criou grupo, criou povo, e também criou pajé para cuidar. Então teve um acidente com o céu, porque, lá em cima, o vento é muito forte e ele não aguentou. A força do vento vem de dois lados, em cima e embaixo, e ficou balançando, balançando. Então a perna de pedra não aguentou, saiu do lugar e o céu caiu em cima do povo. Uns morreram e outros sumiram. Omama sobreviveu porque ele é o grande pajé e aguentou. E seus parentes também. Mas eles ficaram presos e não tinha buraco pra sair. O papagaio, que tem o bico forte, fez um buraco no céu, grande, do nosso tamanho, e todo mundo saiu. Omama, a mulher, filho, filha, primo, os que sobreviveram conseguiram sair. Aí Omama foi fazer de novo, mas ele já tinha um pensamento, um conhecimento melhor para não deixar o céu cair. Ele pensou: ‘Não tinha pensado direito, mas agora eu já sei como e vou fazer bem feito’. Eles foram, levantaram de novo o céu. E foi esse material bem forte que ele deixou porque a terra é muito pesada e o céu também é muito pesado. Aí eles colocaram um pé, assim, na frente e atrás para o céu não tremer e ficar balançando. Ele ficou bem mais seguro e não treme mais. Aqui, nesse lugar, Belo Horizonte, São Paulo, Rio de Janeiro, Manaus, Boa Vista, Venezuela, Colômbia não balança. Mas lá, onde o céu termina, está mais fraco. Os pajés estão protegendo e tomando conta, os pajés yanomami e também outros pajés, parentes nossos – nós somos ligados a outros povos –, eles estão nos protegendo. Meus xapiri (espírítos), eles estão ali, protegendo para não deixar o céu cair outra vez, esse é o trabalho deles. Nós, yanomami, estamos muito preocupados, pensando que o céu vai cair de novo. Isso porque tiram o minério, que sustenta o céu, sustenta a terra. Mas o homem branco está tirando muito, para fazer peça de caminho de trem e não está preocupado com isso. Porque o homem da cidade não estudou. Isso é o perigo. Ele só estudou na escola para saber extrair a riqueza da terra, mas nós estudamos para não deixar acontecer como aconteceu. O céu só vai cair quando não tiver mais yanomami. Se os yanomami todos morrerem, com doenças, ameaça, se o homem branco chegar lá e matar todo mundo ou jogar bomba para acabar conosco. Estamos preocupados com a queda do céu. Agora, não vai cair, não, porque estamos vivos."

Pedimos Justiça, mais uma vida inocente se foi. Peço Força para família do Vitor, e meu desejo de que não seja "mais um" indígena dizimado da Terra. Que a lágrima dessa mãe e de todos que choram junto com ela, - pois Vitor é nosso filho,- seja a gota d´água para o despertar coletivo de uma mudança de atitude e visão acerca da humanidade e do respeito aos seres da terra, da água, do ar e de toda Gaia. Somos todos um.

Danielle Barros é IV Sacerdotisa da Aurora Pós Humana, mestre em Ciências e doutoranda em Ensino de Biociências e Saúde na Fundação Oswaldo Cruz. Filha ? de "Putumujú" da região do sul da Bahia. Criadora da personagem indígena Sibilante, seu alterego.

FONTES: 

Em memória de Vitor Pinto, menino indígena assassinado aos 2 anos de idade, à seus familiares e à todos os indígenas do Brasil  Disponível em: http://ivsacerdotisa.blogspot.com.br/2016/01/em-memoria-de-vitor-pinto-menino.html

Novos hábitos, fim dos dias... Disponível em: http://ivsacerdotisa.blogspot.com.br/2016/01/novos-habitos-fim-dos-dias.html
Tragédia de índio Galdino, queimado vivo em Brasília, completa 15 anos. Leia a matéria completa em: Tragédia de índio Galdino, queimado vivo em Brasília, completa 15 anos . Disponível em: http://www.geledes.org.br/tragedia-de-indio-galdino-queimado-vivo-em-brasilia-completa-15-anos/#ixzz3ykW4Xhrb 
Os Kaingang, povo do curumim assassinado, em eterna fuga. Disponível em: http://brasil.elpais.com/brasil/2016/01/12/politica/1452627574_159229.html
Segundo dados do IBGE, mortalidade infantil ameaça mais os indígenas recém-nascidos. Disponível em:
Suspensa ordem de reintegração de posse de terras ocupadas pelos guarani-kaiowá no MS. Disponível em: http://www.stf.jus.br/portal/cms/verNoticiaDetalhe.asp?idConteudo=308356
Índios expulsos da Aldeia Maracanã vivem momento de expectativa em local provisório. Disponível em: http://www.ebc.com.br/cidadania/2013/04/indios-expulsos-da-aldeia-maracana-vivem-momento-de-expectativa-em-local-provisorio
UNEB divulga moção de apoio aos povos indígenas do Sul da Bahia. Disponível em: http://www.uneb.br/2016/01/25/uneb-divulga-mocao-de-apoio-aos-povos-indigenas-do-sul-da-bahia/
Índios Pataxó de Prado reivindicam permanência no Território Indígena de Comexatiba. Disponível em: http://www.justicasocial.ba.gov.br/2016/01/799/Indios-Pataxo-de-Prado-reivindicam-permanencia-no-Territorio-Indigena-de-Comexatiba.html
Corpo de nordestino assassinado não atrapalha dia de praia em Florianópolis. Disponível em: http://www.diariodocentrodomundo.com.br/corpo-de-nordestino-assassinado-nao-atrapalha-dia-de-praia-em-florianopolis-por-aline-torres-2/
Violência: Brasil mata 82 jovens por dia. Disponível em: http://www.cartacapital.com.br/sociedade/violencia-brasil-mata-82-jovens-por-dia-5716.html
1500, o ano que não terminou. Quem chorou por Vitor, o bebê indígena assassinado com uma lâmina enfiada no pescoço? Disponível em: http://brasil.elpais.com/brasil/2016/01/04/opinion/1451914981_524536.html
‘Feminismo Intersecional’. Que diabos é isso? (E porque você deveria se preocupar). Dispocível em: http://blogueirasfeministas.com/2014/07/feminismo-intersecional-que-diabos-e-isso-e-porque-voce-deveria-se-preocupar/
O falso feminismo interseccional ou o que importa é representar. Disponível em: http://www.geledes.org.br/o-falso-feminismo-interseccional-ou-o-que-importa-e-representar/
A morte brutal de um índio em Belo Horizonte. Um homem desfere dezenas de chutes na cabeça de um indígena que dormia na rua. Disponível em:

Taxa de homicídios de mulheres negras é mais que o dobro da de mulheres brancas (ESTUDO). Disponível em: http://www.brasilpost.com.br/2015/10/16/homicidios-mulheres-brasil_n_8312486.html